{"id":413,"date":"2021-02-27T07:16:27","date_gmt":"2021-02-27T10:16:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/?p=413"},"modified":"2021-02-27T07:16:29","modified_gmt":"2021-02-27T10:16:29","slug":"a-ridicula-ideia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/2021\/02\/27\/a-ridicula-ideia\/","title":{"rendered":"A rid\u00edcula ideia&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>Vou pedir licen\u00e7a para escrever no feminino, primeiro porque sou mulher e falo prioritariamente para mulheres (especificamente neste caso), segundo porque estou falando de um livro escrito por uma mulher, falando da vida de outra mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que o ano era 2019, antes da pandemia come\u00e7ar, antes do luto ser uma tem\u00e1tica t\u00e3o falada, uma amiga me indicou o livro. O livro \u00e9 \u201cA rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver\u201d (de Rosa Montero) e j\u00e1 com esse t\u00edtulo voc\u00ea pode pensar que \u00e9 um livro sobre separa\u00e7\u00e3o, sobre algu\u00e9m que se mudou para o outro lado do mundo, embora hoje, com tanta tecnologia s\u00f3 h\u00e1 uma maneira de realmente nunca mais se ver algu\u00e9m\u2026 A morte!<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 um livro sobre a morte (como a autora j\u00e1 anuncia em sua primeira p\u00e1gina), mas um livro sobre a vida, sobre uma grande parte da vida de uma (ou duas) das mulheres mais fortes que n\u00f3s j\u00e1 tivemos not\u00edcia! Rosa Montero e Marie Curie!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um livro sobre o pioneirismo, mas tamb\u00e9m sobre o luto vivido pelas duas mulheres e a ressignifica\u00e7\u00e3o, palavrinha que temos usado tanto nos dias atuais e vivenciado t\u00e3o pouco. Rosa Montero e Marie Curie n\u00e3o se conheceram, n\u00e3o s\u00e3o contempor\u00e2neas, mas viveram (e vivem) hist\u00f3rias pr\u00f3ximas, parecidas e talvez complementares\u2026 Hist\u00f3rias de perdas, de luta e de luto, de encontrar o seu lugar na literatura e na Ci\u00eancia, respectivamente\u2026 Rosa perdeu seu marido, Pablo, ap\u00f3s uma grande luta contra o c\u00e2ncer, hist\u00f3ria que ela conta, embora timidamente, costurando com a vida e luto de Marie, que perdeu Pierre atropelado\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa s\u00f3 conseguiu ter acesso \u00e0 sua hist\u00f3ria de maneira t\u00e3o completa, pr\u00f3xima e sens\u00edvel, porque Marie escreveu um di\u00e1rio depois da s\u00fabita, da abrupta, da rid\u00edcula morte de Pierre Curie\u2026 Escrever amenizou a dor dessas mulheres? Penso que n\u00e3o! N\u00e3o senti a dor amenizada, mas depois de ler o livro e o di\u00e1rio (que est\u00e1 como ap\u00eandice ao livro) tenho certeza de que ler amenizar\u00e1 a dor de muitas mulheres (e homens) que nunca mais ver\u00e3o algu\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p>Entre tantas reflex\u00f5es important\u00edssimas, Rosa deixa uma dica (se \u00e9 que posso chamar assim) de como ressignificar o luto ao dizer que,<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A arte em geral, e a literatura em particular, s\u00e3o armas poderosas contra o Mal e a Dor. Os romances n\u00e3o o vencem (s\u00e3o invenc\u00edveis), mas nos confortam do espanto. Em primeiro lugar, porque nos unem ao resto da humanidade: a literatura nos torna parte do todo e, no todo, a dor individual parece que d\u00f3i um pouco menos. Mas a magia tamb\u00e9m funciona porque, quando o sofrimento nos alquebra, a arte consegue transformar essa ferida feia e suja numa coisa bela\u201d<\/em> (MONTERO, 2013, p. 105-106).<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecer a vida de Marie \u00e9 inspirador para quem est\u00e1 discutindo ou pretende discutir o lugar da mulher na Ci\u00eancia, mas conhecer este peda\u00e7o da vida de Curie de forma t\u00e3o humanizada pelas palavras de Rosa pode ser ainda mais importante, para que possamos perceber que ela lutou contra in\u00fameras adversidades (internas e sociais), mas tamb\u00e9m que ela n\u00e3o era infal\u00edvel, que errava, levantava, que viveu grandes dificuldades em sua vida, inclusive financeira, mas que se reergueu, que \u201cvenceu\u201d. Coloco o vencer entre aspas porque n\u00e3o consigo definir fielmente o que \u00e9 vencer. A primeira mulher a ganhar um pr\u00eamio Nobel e a \u00fanica a ganhar dois, mas que abdicou de tantas coisas pela Ci\u00eancia, inclusive de sua pr\u00f3pria sa\u00fade\u2026 Ser\u00e1 que isso \u00e9 vencer?<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia dizer muitas outras coisas sobre o livro, mas apenas direi que a conversa com esse livro \u00e9 imperd\u00edvel! Sim, uma conversa porque tenha certeza que em muitos momentos, no decorrer dele, voc\u00ea vai pensar que est\u00e1 lendo uma mensagem de uma amiga contando alguma coisa, de t\u00e3o pr\u00f3xima que se sentir\u00e1 da autora e de Marie.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste livro, al\u00e9m de trazer \u00e0 tona a hist\u00f3ria de vida de uma das mulheres mais importantes da Ci\u00eancia mundial, Rosa faz rir e faz chorar, mas principalmente faz refletir sobre quem somos n\u00f3s, as mulheres que atuam nas Universidades, nas escolas, nos centros de pesquisa, nas grandes descobertas, nas quest\u00f5es pol\u00edticas, no sistema jur\u00eddico, nos lares, nas reitorias, somos mulheres que sentimos dores e que nem sempre falamos sobre isso, nem sempre encontramos com quem falar delas, embora tenhamos companheiras e companheiros maravilhosos\u2026 A dor \u00e9 algo t\u00e3o \u00edntimo, t\u00e3o nosso, que nem sempre dizer desta dor resolva\u2026 Neste sentido,<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA verdadeira dor \u00e9 indiz\u00edvel. Se voc\u00ea consegue falar a respeito das suas ang\u00fastias, est\u00e1 com sorte: significa que n\u00e3o \u00e9 nada t\u00e3o importante. Porque quando a dor cai sobre voc\u00ea sem paliativos, a primeira coisa que ela lhe arranca \u00e9 a #palavra. \u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea reconhe\u00e7a o que estou dizendo; talvez j\u00e1 o tenha experimentado, pois o sofrimento \u00e9 algo muito comum em todas as vidas (assim com a alegria). Falo daquela dor que \u00e9 t\u00e3o grande que nem parece nascer de dentro, como se voc\u00ea tivesse sido soterrada por uma avalanche. E est\u00e1 t\u00e3o enterrada debaixo dessas toneladas de dor pedregosas que n\u00e3o consegue nem falar. Voc\u00ea tem certeza de que ningu\u00e9m vai ouvi-la.\u201d <\/em>(MONTERO, 2013, p. 21)<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das dores n\u00e3o diz\u00edveis, atualmente, no ano de 2020\/21, estas mulheres t\u00eam visto a sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica despencar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o masculina. Com a pandemia da COVID-19, com todas as restri\u00e7\u00f5es que estamos vivenciando a partir dela, especialmente as mulheres que t\u00eam filhos, a rotina de muitas delas transmutam em horas infind\u00e1veis de trabalho, que n\u00e3o cabem nas 24 horas que um dia tem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao buscar conhecer mais um pouco sobre esta rotina e registr\u00e1-la para futuros estudos, eu e outras duas mulheres propomos o dossi\u00ea \u201cPandemia, mulheres, m\u00e3es, cientistas, pesquisadoras e as tecnologias\u2026\u201d na revista <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.36704\/sciaseducomtec.v2i2\">SCIAS \u2013 Educa\u00e7\u00e3o, Comunica\u00e7\u00e3o e Tecnologia<\/a>. Sugiro a leitura do livro, dos 26 relatos das 49 autoras do Brasil e do exterior, que trazemos no dossi\u00ea e se quer continuar lendo mulheres falando de mulheres, sugiro que leia tamb\u00e9m outro livro da Rosa Montero: \u201cN\u00f3s, mulheres: grandes vidas femininas\u201d. Depois vem o relato!\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Texto retirado de: http:\/\/pensaraeducacao.com.br\/pensaraeducacaoempauta\/a-ridicula-ideia-de-nunca-mais-te-ver\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou pedir licen\u00e7a para escrever no feminino, primeiro porque sou mulher e falo prioritariamente para mulheres (especificamente neste caso), segundo porque estou falando de um&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/2021\/02\/27\/a-ridicula-ideia\/\">Vem ler mais&#8230;<span class=\"screen-reader-text\">A rid\u00edcula ideia&#8230;<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/413"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=413"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/413\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":414,"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/413\/revisions\/414"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=413"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=413"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.amandatolomelli.pro.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=413"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}